De acordo com grupos locais, empresas de investigação internacionais e a National Geographic, a procura insustentável por gás e petróleo no delta do Okavango por parte da ReconAfrica é um escândalo político e ambiental. A investigação recente da nossa equipa aos negócios financeiros da empresa demonstra que estão, muito provavelmente, assentes num esquema financeiro cometido pela ReconAfrica, direcionado para pequenos acionistas não institucionais que foram levados a comprar as ações sem valor.

Um dos locais de perfuração da ReconAfrica na Namíbia.

No dia 18 de agosto, o Women’s Leadership Centre – “WLC” (centro de liderança para mulheres), baseado em Windhoek, na Namíbia, acolheu uma sessão de 100 minutos em que se mergulhou a fundo nas atividades de perfuração petrolífera da ReconAfrica que ameaçam o delta do Okavango. Um painel de ativistas da sociedade civil e peritos internacionais disputaram as declarações falsas da empresa, a fraca conformidade com políticas ambientais e o possível roubo de propriedades locais para os seus locais de perfuração. A apresentação completa está disponível aqui.

Sou o fundador da NOAH Advisors e da NOAH Conference. No último quarto de século, temos trabalhado com os principais empreendedores e investidores digitais do mundo, direcionando capital para startups. Desde 2019 que tenho centrado os meus esforços no apoio a negócios que providenciam um futuro sustentável para o planeta. Mais informação sobre a NOAH nesta apresentação

Sou um banqueiro de investimento que se tornou ativista porque não posso aceitar que os nossos recursos naturais mais preciosos estejam desprotegidos, num mundo reduzido à impotência pelas fake news, por interesses corporativos a curto prazo e por uma complexa interdependência global. A nossa equipa tem seguido a campanha de promoção das ações da ReconAfrica, nos últimos seis meses, e as minhas publicações no WeDontHaveTime e no LinkedIn sobre as atividades duvidosas da empresa foram lidas por mais de 30.000 pessoas, globalmente.

A ReconAfrica, através de publicações online pagas, como a Oilprice.com, diz que está a adiar a exploração da maior descoberta de petróleo em terra da década. No entanto, a nossa investigação ao dinheiro e capital dos investidores demonstra que a empresa é apenas uma campanha de marketing online pré-fabricada, que utiliza métodos de publicidade digital para fazer com que estas notícias falsas pareçam realidade.

Se o propósito da empresa não for extrair petróleo mas sim capital, conforme alega a empresa de investigação Viceroy, então foi muito bem-sucedida. Esta pequena empresa petrolífera com poucos ativos, sem petróleo nem lucro, cresceu para uma empresa quase multimilionária só no último ano.

As setas vermelhas marcam os locais de perfuração da ReconAfrica, na área de KAZA TFZA (limite a branco).

  • Legenda (de cima para baixo):
  • Área de destaque
  • KAZA TFZA
  • Parque Nacional
  • Área de conservação
  • Área da Gama Management
  • Outra área protegida
  • Poço de exploração

Apesar de anunciar em abril que tinha encontrado “um sistema de petróleo funcional”, na suposta “recém-descoberta” bacia de Kavango, a empresa não apresentou qualquer análise independente para apoiar estas declarações. No entanto, o anúncio coincidiu com uma massiva e, potencialmente, ilegal campanha de marketing online que inflacionou artificialmente o preço das ações de 2 para 10 dólares americanos, em apenas seis semanas.

Desde essa ascensão em junho que o brilho da empresa diminuiu, com peritos a disputarem a capacidade de a empresa sustentar as suas declarações com qualquer tipo de prova verificável. Hoje, o preço das ações desceu ligeiramente abaixo dos 5 dólares americanos, o que consideramos ser, ainda, ridiculamente inflacionado, tendo em conta que foram fornecidas absolutamente zero provas desta suposta descoberta massiva pela ReconAfrica.

O programa de perfuração em curso da ReconAfrica está a ser conduzido na maior reserva internacional de vida selvagem protegida do mundo, a Kavango-Zambezi Transfrontier Conservation Area (“KAZA” – Área Transfronteiriça de Conservação do Kavango-Zambeze), que abrange cinco nações, uma área maior que a França. Este parque enorme protege o que resta da maior manada de elefantes do mundo em perigo de extinção, bem como dezenas de outras espécies em perigo, como a garça-de-garganta-vermelha e o pangolim-comum, que têm sido caçados ilegalmente quase até à extinção.

Os interligados rio Kavango, delta do Okavango e o efémero rio subterrâneo Omatako que flui pelos locais de perfuração da ReconAfrica sustentam quase um milhão de pessoas com meios de subsistência sustentáveis. As operações de perfuração da empresa já estão, potencialmente, a danificar as reservas de água locais, em violação das leis ambientais da Namíbia. Por exemplo, a ReconAfrica despejou a água de perfuração que produziu em poços sem revestimento, de acordo com o World Wide Fund For Nature (WWF) e a National Geographic.

O delta do Okavango, património mundial da UNESCO e um dos raros grandes sistemas de delta interior que não desagua num mar ou oceano, com um sistema de zonas húmidas que está praticamente intacto.

Nem todas as pessoas que vivem dentro da área licenciada deram o seu consentimento voluntário, prévio e informado para a realização destas operações poluentes e nocivas nas suas comunidades.

A KAZA é financiada pelo banco de desenvolvimento alemão KfW, pelo Ministério Federal alemão para a cooperação económica e desenvolvimento, pela agência alemã para a cooperação internacional (GIZ), pelo Banco Mundial e por outras instituições. Parece que nenhuma destas instituições interveio para questionar as operações de perfuração dúbias na terra que afirmam proteger. A NOAH decidiu cooperar com grupos da sociedade civil na região para utilizar os nossos conhecimentos financeiros e investigar e expor este esquema pelo que cremos que seja: uma fraude praticada sobre os povos da Namíbia por uma empresa estrangeira com ligação a possíveis elementos criminais.

Os registos financeiros da ReconAfrica demonstram que o preço das suas ações foi inflacionado por um orçamento de marketing anual de 2-3 milhões de dólares americanos, pagando em dinheiro e ações por conteúdo que alimentasse as ilusões da equipa de gestão da ReconAfrica, em alegada violação das leis de valores mobiliários dos EUA – de acordo com uma queixa apresentada por um delator às autoridades norte-americanas e descrita num artigo recente da National Geographic, apoiada por inúmeros relatórios da empresa de investigação financeira Viceroy.

Não há uma única investigação independente que confirme o que a ReconAfrica afirma, desde a sua alegada “bacia de petróleo funcional” a qualquer tipo de grande “rocha geradora” da qual o petróleo poderia fluir. Além disto tudo, a empresa não permitiu qualquer análise independente às suas diagrafias. É importante referir que a profundidade pretendida não foi alcançada em nenhum dos poços. Os geólogos de exploração petrolífera, como Matt Totten Jr., repararam nesta situação na apresentação da WLC, dado que esta atividade seria crucial para provar qualquer tipo de descoberta real de gás e petróleo.

Local de perfuração da ReconAfrica, na Área Transfronteiriça de Conservação do Kavango-Zambeze.

Um facto muito interessante é que há mais de 40 outras licenças de exploração na Namíbia. Estas outras empresas de exploração de gás e petróleo, como a Eco Oil & Gas Ltd., Chariot Limited, Letho Resources, Monitor Exploration Ltd. e a empresa local Hydrocarb, estão avaliadas numa fração do valor da ReconAfrica. As suas avaliações combinadas estão bem abaixo dos 10% da avaliação atual da ReconAfrica.

Porque é que os preços das ações da ReconAfrica subiram para níveis tão incompreensíveis quando ainda não há uma validação por terceiros das suas incríveis alegações?

A nossa investigação demonstra que a empresa tem pagado por uma sofisticada publicidade online de terceiros, que é publicada como factos e não é contestada abertamente. Por isso, os investidores não institucionais assumem que esta história fabricada de abundância de petróleo por descobrir deve ser verdade. Precisamos que os reguladores do mercado financeiro façam o seu trabalho e intervenham para proteger estes pequenos investidores. Pelas nossas conversas com amigos de longa data na bolsa de valores alemã, descobrimos que o regulador canadiano parece não conseguir compreender as atividades publicitárias online da ReconAfrica. Dada a nossa experiência, sentimo-nos na obrigação de o ajudar.

Como peritos em investimentos financeiros online, a nossa investigação demonstra que empresas de marketing digital como a NXT, Invesbrain e baystreet.ca estão a ser pagas para divulgar as mentiras da ReconAfrica na Internet de forma sistemática e estratégica. Aparentemente, quando um terceiro faz afirmações falsas, a empresa acredita que são uma forma de fomentar a relação com os investidores, mas, na verdade, pode estar a infringir a lei. Estas práticas manipulativas recordam-me das técnicas utilizadas pela Cambridge Analytica, que recorreu a algo semelhante para aumentar artificialmente o apoio online de Trump, em 2016.

O nosso trabalho demonstra que a empresa pagou milhões de dólares para adquirir uns estimados 5000 pequenos investidores não institucionais através de pesquisas pagas pelos intermediários/corretores da Haywood Securities, oilprice.com e mais de 30 outros “ajudantes” na Internet. Só no Youtube, a nossa análise mostra inúmeros promotores a inflacionar artificialmente as ações da ReconAfrica, como San Diego Torrey Hills Capital, TPG Investing, Zac Hartley, Brandon10x e muitas mais.

A NXT afirma abertamente que ajuda empresas nas suas relações com os investidores, mas apesar de a BankTrack publicar acusações contundentes sobre as atividades potencialmente ilegais de relação com os investidores, os reguladores permaneceram calados. Acreditamos que o regulador financeiro alemão BaFin deveria analisar muito melhor as empresas que tem listadas em bolsa, como a ReconAfrica, para proteger os seus investidores. Finalmente, existem provas de que estão a começar a fazê-lo.

Através da análise de muitos fóruns online de investidores não institucionais, bem como de grupos financeiros como o Seeking Alpha, a nossa equipa descobriu que a ReconAfrica é, previsivelmente, 99,97% detida por investidores não institucionais e insiders. Note-se que nos meus 24 anos como banqueiro de investimento, nunca vi uma empresa avaliada em mil milhões de dólares americanos com uma participação baseada num número tão elevado de investidores não institucionais.

Lista dos utilizadores mais ativos a discutir as ações da ReconAfrica, no Reddit e Stockwits. As descobertas sugerem que estas contas foram abertas recentemente e mantidas com o único propósito de inflacionar artificialmente as ações.

  • Tabela da esquerda:
    • Título: Plataforma Reddit
    • Colunas (da esquerda para a direita): utilizador; tempo no Reddit; publicações; publicações sobre a ReconAfrica; percentagem de publicações sobre a ReconAfrica
  • Tabela da direita:
    • Título: Plataforma Stockwits
    • Colunas (da esquerda para a direita): ID de utilizador; nome da conta; data de inscrição; ideias; publicações sobre a ReconAfrica; percentagem de publicações sobre a ReconAfrica

É óbvio para a nossa equipa que os fóruns online sobre a ReconAfrica são geridos pela própria empresa. Os utilizadores mais ativos no Reddit, Stocktwits, Yahoo Finance!, Discord e outros foram criados nos últimos 9 meses e discutem, principalmente, sobre as ações da ReconAfrica. Estas contas foram abertas e mantidas, nitidamente, com o único propósito de inflacionar artificialmente as ações. Em chats normais sobre ações há sempre algumas vozes dissidentes, que mencionam preocupações ou têm discussões abertas. Nos fóruns online da ReconAfrica todas as críticas são removidas das plataformas por moderadores bastante agressivos. Eu fui removido do fórum do Discord por questionar a venda das ações de alguns membros da direção da ReconAfrica antes do alegado “grande anúncio sobre petróleo”, no final de julho de 2021. O anúncio foi um fracasso, o que fez com que muitos investidores vendessem as suas ações.

Identificamos inúmeros problemas com estes chats de promoção online, que parece terem sido criados de propósito com a intenção de inflacionar as ações e silenciar os dissidentes, incluindo nenhum comunicado sobre a intenção de a empresa gerir estes painéis e, mais importante para os reguladores, nenhuma divulgação pública do dinheiro pago a determinadas pessoas que gerem estes painéis e publicam, continuamente, material promocional em prol da ReconAfrica.

Não sou, de longe, um perito em petróleo, mas quando pesquisei sobre a história da perfuração petrolífera na Namíbia, encontrei provas de especulações petrolíferas falhadas semelhantes, em 1927. Desde então, houve mais de 50 iniciativas de muitas empresas petrolíferas globais para encontrar petróleo na Namíbia. Todas falhadas. O que é que não viram que a ReconAfrica supostamente encontrou?

Membros da equipa da ReconAfrica, como o diretor Jay Park, foram criticados pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas por subornarem oficiais noutros países africanos, com o que pareciam ser contratos de exploração de petróleo lucrativos, mas que deixaram os investidores a arcar com as consequências.

Elefantes no delta do Okavango.

Vivemos num momento crucial, em que se pede à humanidade para criar um novo paradigma financeiro, para sobreviver ao aquecimento global derivado do uso excessivo de combustíveis fósseis. A Namíbia tem muito vento e luz solar, duas das mais poderosas energias limpas do futuro. Enquanto consultores financeiros, não podemos ficar parados e ver uma empresa a pôr em perigo os modos de subsistência sustentáveis de milhões de pessoas, enquanto nos deixam ainda mais à beira do colapso social. É claro que precisamos de instituições e regulamentação mais fortes, mas, entretanto, estamos solidários com grupos como o WLC na luta para desenhar o limite na areia africana. Não podemos perder tempo a alimentar a procura insustentável da raça humana por combustíveis fósseis e a contribuição massiva da indústria para as alterações climáticas.

Como podes ajudar esta causa? Junta-te à nossa chamada à ação!

Se planeias visitar o delta do Okavango e gostarias de estar a par dos mais recentes desenvolvimentos nesta história, clica aqui para saberes mais sobre a Okavango Defence Coalition (coligação para a defesa do Okavango). Estamos a trabalhar ativamente em alternativas económicas para a região. Visita o nosso site, onde podes saber mais detalhes sobre como podes ajudar, à medida que os publicamos.

Temos de permanecer firmes, juntos, para cuidar da natureza e das pessoas que lutam incansavelmente pela sobrevivência do nosso planeta. Considera apoiar organizações como a Women’s Leadership Centre.

 

Escrito por MARCO RODZYNEK, membro da direção e principal investidor da We Don’t Have Time, fundador da conferência NOAH e consultor financeiro de mais de 300 startups online nos últimos 24 anos.